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A Palavra é…

… Pusilânime…

Como de costume, nesta coluna, abordaremos sempre o famoso vocabulário inusual que são aquelas palavras da nossa língua portuguesa pouco utilizadas no dia-a-dia pela maioria das pessoas, que quando se deparam com tais expressões ainda se confundem, e muito.

E é exatamente o tão decantado vocabulário que acaba erguendo uma enorme parede no cotidiano das pessoas que utilizam geralmente palavras mais coloquiais. É bom ficar esperto, porque políticos, intelectuais, vendedores, executivos, historiadores, jornalistas, professores, empresários, e vários outros profissionais que, de certa forma, precisam, ou deveriam, fazer uso de um repertório de palavras mais culto – mas que na verdade se distanciam das pessoas de pouco acesso à formação e informação acadêmica ou técnica – acabam se comunicando com um número muito reduzido de pessoas, porque a grande maioria dos falantes brasileiros não os compreendem.

Só que nada disso pode ser uma desculpa, pois a língua bem falada e escrita é uma obrigação de todos já que ela, a língua portuguesa, é a mesma para todos nós e só tem uma forma, que é a correta. O resto é exceção, elucubração infundada, ou erro mesmo. Não há mágica. Só tem vocabulário extenso e diferenciado quem pratica.

Vale lembrar que vigaristas, charlatões, falsos líderes e estelionatários, religiosos escroques, políticos, empresários, advogados e juízes corruptos, têm no vocabulário uma arma poderosa para ludibriarem, se locupletarem da boa fé das pessoas, ganharem dinheiro  e processos que tramitam na Justiça.

Sempre acompanhadas de uma história fictícia, para que a leitura e o entendimento se tornem mais leves para você leitor, abordaremos a cada edição, uma, duas ou mais palavras de uso restrito da maioria das pessoas, e portanto de entendimento até ofuscado ou dúbio. Qualquer semelhança das historinhas apresentadas aqui com a vida real é mera coincidência ou cópia fiel dela mesma. Vamos, então, à nossa historinha de hoje?

- Maria Vanusa, você não vai à essa feijoada que o Anastácio José está promovendo, de jeito nenhum. Nem de feijão você gosta. Eu sei que quer ir para se encontrar com aquele irresponsável do Flávio Romildo.

- O Mildinho não é irresponsável não, mãe, e ele nem vai estar lá. Quero ir para ajudar por que é uma feijoada beneficente, a senhora se esqueceu?

- Não me esqueci não. Mas desde quando você participa de alguma coisa beneficente aqui no bairro? Eu sei que você deve ter marcado para se encontrar sim, com o tal do Mildinho, como gosta de dizer. Mas daqui você não sai. Não vai de jeito nenhum.

- Eu vou sim, mãe. Já sou maior e bem vacinada, tá bom?

-  E você Hestrôncio? Não vai falar nada e fica aí lendo esse jornal… A Maria Vanusa também é sua filha, sabia?

-  Sabia sim, Eunicélia. E desde quando ela nasceu.

- Então diga alguma coisa para essa desmiolada, que quer se encontrar com aquele irresponsável do Flávio Romildo…

 - Deixa ela, Eunicélia. A menina já é maior e vacinada, sô! .

- Nossa, que criativo, Hestrôncio. O que fez foi repetir o que ela disse, por acaso você percebeu? 

- Deixe-me ler o meu jornal em paz, Eunicélia. Que saco!

- Está vendo só, mãe. O pai até simpatiza com o Mildinho…

 - E para de chamar aquele irresponsável de Mildinho, Maria Vanusa. Mas vamos tirar isso a limpo agora mesmo, quer ver?

- Então Hestrôncio, ela está dizendo que você até simpatiza com aquele irresponsável do Flávio Romildo. Você aprova a Maria Vanusa namorar aquele irresponsável? O que é que acha dele?

- Nada. Um pusilânime, talvez. Estão satisfeitas agora? E deixem-me ler o meu jornal em paz…

-  Ah! Tá vendo só, mãe? O pai disse uma baita duma palavra cumprida e bonita. Foi para elogiar o Mildinho. Viu? Então está aprovado. Fui… E saiu apressadamente sem dar tempo de qualquer reação por parte de sua mãe, que àquela altura estava cega de raiva. Mas… sobrou para quem, mesmo?

- Olha só o que você fez Hestrôncio. Foi elogiar aquele irresponsável na frente dela. Aproveitou-se e foi se encontrar com ele… Deus me perdoe. Não quero nem falar o que estou pensando. Viu só o que você fez?.

- E quem disse que eu elogiei o Flávio Romildo, Eunicélia? Se você soubesse o que eu falei, jamais diria uma asneira dessas. Eu disse “um pusilânime”, que passa longe de elogio, ao contrário. Quer dizer pessoa com ânimo vagaroso, um molóide, quase um covarde. Isso é elogio? Mas aí a Maria Vanusa se aproveitou disso, driblou você e foi lá, quem sabe, se encontrar com o… Mildinho…

- Ai minha Nossa Senhora da Pedra Quadrada? O que é que eu faço com essa menina, me diga? Desesperou-se a mãe, olhando para o teto e suspirando profundamente.

- Com a Maria Vanusa eu não sei. Mas com você mesma, Eunicélia, eu tenho uma sugestão. Vá lá no quintal, dê uma volta, respire fundo e me deixe ler  o jornal por que eu quero ver o que diz aqui sobre a candidata do Ruiz Ignorácio Molusco Lumbriga à presidência da répública, a Vilma Raquete. Acho que ela é do tipo obsedante.

-  É o quê? Lá vem você de novo, Hestrôncio, com essas palavras…

-  Então pronto, Eunicélia. Já tenho outra sugestão para você se acalmar. Vá até o dicionário, veja o significado da palavra que acabei de pronunciar, dê uma volta pelo jardim respire fundo, mas… deixe-me ler o jornal, pelo amor de Deus!!!!!!!!!!!

-  Ah, que saco!! Eu vou dar uma volta mesmo. Além da sua filha me tirar do sério, agora vem você também. E saiu alvoroçadamente da sala.

Mas o que teria dito, Hestrôncio, a respeito da candidata à presidência da  república, Vilma Raquete? O que ele quis dizer com obsedante?

Não percam na próxima edição a continuação da historinha de Hestrôncio, Maria Vanusa, Eunicélia e Flávio Romildo, o Mildinho, em mais uma “È uma Língua Portuguesa com Certeza”. Até lá e um grande abraço.

* Por: Cícero Porfírio da Silva

Cícero Porfírio da Silva  – Jornalista (MTB 23.510 – SP)  – Graduado em História e Pós Graduado em Docência do Ensino Superior

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